Paula Span
Sócrates não tinha medo da morte; ele tomou cicuta calmamente. Kierkegaard estava obcecado com a morte, o que o deixava um pouco deprimido. Quanto à Lorraine Tosiello, um médico de 59 anos de Bradley Beach, Nova Jersey, é o processo da morte que parece infinitamente intrigante.
"Estou mais interessado em, filosoficamente, o que é a morte? O que é essa transição?", disse o Dr. Tosiello num encontro recente numa cafeteria de Manhattan, onde oito pessoas apareceram numa noite de quarta-feira para discutir questões com as quais os filósofos se debatem há séculos.
O grupo, que se reúne mensalmente, chama-se Death Cafe (ou Café da Morte), um dos muitos encontros do tipo que surgiram em quase 40 cidades em todo o país no ano passado. Ramificações do movimento "café mortel", que surgiu na Suíça e na França há cerca de dez anos, eles não são grupos de apoio ao luto ou sessões de planejamento do fim da vida, mas fóruns bastante casuais para pessoas que queiram discutir pensamentos filosóficos. Como é a morte? Por que temê-la? Como as nossas opiniões sobre a morte informam a maneira como vivemos?
"A morte e a dor são temas evitados a todo custo em nossa sociedade", disse Audrey Pellicano, 60 anos, anfitriã do New York Death Cafe, que terá sua quinta reunião na quarta-feira. "Se falamos sobre esses temas, talvez não tenhamos tanto medo deles."
Parte conversa de dormitório, parte terapia em grupo, os Cafés da Morte são estruturados como encontros intelectuais, mas na prática tendem a acabar sendo algo um pouco diferente --pode-se chamá-los de grupo de discussão numa era de encontros de comunidades.
Cada um é liderado por um facilitador voluntário, normalmente alguém que tem alguma ligação profissional com o tema (Pellicano, por exemplo, é uma conselheira para o luto). Entre os participantes há pessoas de todas as idades, que trabalham ou estão aposentadas, atraídas por anúncios no Facebook, cartazes em lojas, calendários de eventos locais ou boca à boca. As mulheres costumam ser mais numerosas que os homens.
"Na Europa, há uma tradição de reuniões informais para discutir ideias, o café filosófico, o café científico", diz Jon Underwood, 40 anos, web designer de Londres que diz ter realizado o primeiro Café da Morte no porão de sua casa em 2011 e propagado o conceito através de um site que ele administra.
Underwood adaptou a ideia de um sociólogo suíço, Bernard Crettaz, que havia organizado "cafés mortel" para tentar promover discussões mais abertas sobre a morte. "Há um reconhecimento cada vez maior sobre o fato de que terceirizar a morte para a profissão médica e agências funerárias não nos têm feito nenhum favor", diz Underwood. Ele vislumbrou o Café da Morte como "um espaço onde as pessoas podem discutir a morte, encontrar sentido nela e refletir sobre o que é importante e fazer perguntas profundas".
Na prática, os motivos que levam às pessoas às reuniões variam, assim como a profundidade da conversa. Tosiello, que disse que nunca perdeu um familiar próximo, compareceu pelo prazer intelectual. Outros foram para refletir sobre as questões e os sentimentos que a morte de um ente querido havia levantado.
Por exemplo, numa reunião do Café da Morte, este mês, em St. Joseph, Missouri, a anfitriã Megan Mooney, uma assistente social de 29 anos de idade, pediu a cada um dos 19 participantes para dizer uma única palavra que associava à morte. "Liberdade", alguém disse. "Transição". "Luto". "Alívio". "Finalidade". E, por fim, "Graduação".
A última foi dita por Kelly Vanderpool, uma mãe de 25 anos de idade, que era caloura no ensino médio quando um amigo que havia acabado de tirar carteira de motorista morreu num acidente de carro. "Desde então, eu sempre quis saber onde ele estava", disse ela numa entrevista. "É verdade que a vida continua? Joe ainda está por perto?"
Jeneva Stoffels, que tem 69 anos e dirigiu 110 quilômetros desde Auburn, Nebraska, para comparecer ao encontro, disse a Vanderpool que ela não tinha uma resposta. Mas tinha certeza de que sua falecida mãe falou com ela uma vez num sonho. "Uma versão mais jovem, brilhante e feliz, numa espécie de 'estou num lugar bom, então você não precisa se preocupar'", disse Stoffels numa entrevista. "Independentemente de onde veio, foi reconfortante."
Mooney, a anfitriã, fez uma série de perguntas para começar a discussão: qual é o seu maior medo em relação à morte? Qual é o legado que você quer deixar? Ela havia levado canetas e quadros brancos nos quais as pessoas podiam terminar a frase: "Antes de morrer, eu quero..." Entre as respostas, havia coisas como "conhecer o Egito", "ganhar na loteria", "escrever um livro de poemas" e "ver minha filha crescer".
Acima de tudo, disse Mooney, "há alguns momentos lúgubres, mas as pessoas riem. Elas se divertem."
As reuniões tendem a ser mais mundanas do que macabras, e mais propensas a produzir pequenas epifanias do que compreensões profundas. "Não é como a psicoterapia", disse Stoffels. "Não será um grande avanço. Apenas abre um pouco a fresta da porta."
Médicos e pesquisadores que estudam as atitudes em relação à morte dizem que, para a maioria das pessoas, essas conversas são saudáveis; falar sobre a morte pode aliviar os medos das pessoas e a ideia de que a morte é um tabu. "Uma grande parte da sociedade norte-americana é muito avessa a pensar sobre a morte", disse David Barnard, professor de ética na Universidade de Saúde e Ciências de Oregon, que escreveu extensivamente sobre o fim da vida.
Nos Estados Unidos, os Cafés da Morte se espalharam rapidamente. O primeiro deles aconteceu no verão passado numa padaria Panera Bread, nos arredores de Columbus, Ohio, onde foram servidos biscoitos em forma de lápide aos convidados. Desde então, mais de cem encontros foram realizados em cidades de todo o país, entre elas Atlanta, Baltimore, Cleveland, Los Angeles e Seattle.
"Num dos encontros, uma mulher que acreditava em reencarnação estava sentada na frente de três ateus, contando sobre suas vidas passadas", disse Lizzy Miles, assistente social de um hospice [centro de cuidados paliativos], que organizou a primeira reunião em Columbus e vem liderando o grupo desde então. Os tópicos de discussão incluíram a eutanásia, o sofrimento, o livro best-seller "Proof of Heaven" e as ordens de pacientes para não serem reanimados.
Miles registrou 112 participantes em seus primeiros nove eventos e verificou que um quarto era formado por menores de 35 anos e 22% tinham mais de 65 anos, com a maioria dos participantes entre 45 e 64 anos, com predominância de mulheres. Cerca de metade das pessoas que preencheram uma pesquisa depois da reunião concordaram com a afirmação: "eu me sinto mais à vontade para falar sobre a morte e o morrer agora".
O movimento Café da Morte tem algumas regras básicas. As reuniões são confidenciais e sem fins lucrativos. As pessoas devem respeitar as crenças diferentes umas das outras e evitar o proselitismo. E o chá e o bolo desempenham um papel importante.
"Há uma superstição de que se você falar sobre a morte, você a chama para perto", disse Underwood, o organizador em Londres. "Mas o consumo de alimentos é um processo que sustenta a vida. O bolo deixa as coisas mais normais."
Paula Span é a autora de "When the Time Comes: Families With Aging Parents Share Their Struggles and Solutions" [algo como "Quando chega a hora: famílias com pais idosos compartilham seus problemas e soluções"].
Tradutor: Eloise De Vylder
Fonte: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2013/06/23/americanos-fazem-reunioes-em-cafes-para-falar-sobre-a-morte.htm Acessado em 23/06/13.