Diferente das mortes no final da velhice tardia, ou mesmo da anunciada partida nos pacientes terminais, as mortes traumáticas não deixam chance à despedida, a se colocar as coisas em ordem ou a se terminar aquilo que está em realização. Mas como lidar quando a partida é inesperada?
Do ponto de vista estritamente materialista, a morte inesperada provoca uma quebra de um projeto de vida. Quando isso ocorre na juventude ou na meia idade, o trauma parece ser ainda maior, pois haviam muitos sonhos a serem vividos e muitas experiências a serem concretizadas. Restou aos familiares queridos assimilar a dor da perda, num processo de luto a ser vivido por longo período.
Nesses casos, o processo de luto familiar é essencial para que todos possam reconfigurar a vida, agora sem o ente querido. Essa reconfiguração é um processo cognitivo e emocional, cujo avanço não significa abrir mão dos sentimentos ou da memória do falecido, mas sim, permitir a continuidade da vida sem a sua presença. E isso leva mais tempo a ser construído emocionalmente no caso de mortes traumáticas.
Aqui a espiritualização da partida pode ser um componente essencial para trazer conforto à família. Muitas linhas religiosas tem sua explicação e acolhimento para o assunto. Não se vai aqui focar em uma ou outra, mas sim, na linha geral espiritual, como fundamento de trabalho do Direito DEpartir.
Nesse sentido, seja na velhice tardia, como todos esperam que ocorra naturalmente a partida, ou mesmo nos casos de pacientes terminais ou de mortes traumáticas de jovens, quando não se espera a partida, há que se ter em mente que a partida não significa o fim, mas sim uma transição, dentro de uma jornada infinita do caminho.
Essa concepção espiritual ajuda em muito no processo terapêutico da família, no enfrentamento da dor sofrida pela perda, na aceitação desta ocorrência inesperada e na própria mudança de curso a ser adotada a seguir.
Mudança de curso pois o luto é um processo de adaptação, na qual cada familiar poderá questionar seu próprio caminho existencial e fazer novas opções de vida a seguir, rever seus conceitos sobre o que é viver. Trata-se do arquétipo do sobrevivente, vivido nessas situações de grande perda humana.
A partir daí, poderá dirigir seus dias em prol de uma causa nobre, a marcar seus passos no mandato corporal desempenhado, com a esperança de que com isso honraremos os dias de Sol, de amor e de bem-aventurança, no melhor do viver.