Pesquisa realizada em 2010 coloca o Brasil em 38.º lugar em um ranking de 40
países quando o assunto é qualidade de morte
Brasília - Especialistas que lidam no cotidiano com a iminência da morte
defendem que o governo desenvolva uma política pública para melhorar a qualidade
de vida de pacientes terminais.
De acordo com a diretora da Academia Nacional de
Cuidados Paliativos, Dalva Yukie Matsumoto, a dor é sintoma predominante nos
pacientes terminais no Brasil e falta formação para amenizá-la.
"A grande maioria dos médicos no Brasil não tem formação para tratar de dor,
não sabe prescrever uma morfina, um opióide [substâncias naturais ou sintéticas
derivadas do ópio] de forma adequada. Existe um tabu por acharem que morfina é
para quem está morrendo. O mito é reforçado pelo mau uso. Esse é um grande
desafio para gente [médicos paliativistas]", disse Dalva, que coordena a
Hospedaria de Cuidados Paliativos do Hospital do Servidor Público de São
Paulo.
Pesquisa realizada pela consultoria Economist Intelligence Unit e publicada
pela revista inglesa The Economist, em 2010, coloca o Brasil em 38.º
lugar em um ranking de 40 países quando o assunto é qualidade de morte. O país
fica à frente apenas de Uganda e da Índia. Esse dado indica que o brasileiro em
estado terminal ainda sofre muito no seu processo de morte.
De acordo com Dalva, essa abordagem, que inclui a melhoria da qualidade de
vida para os pacientes, é discutida há 60 anos no Reino Unido, país que o ocupa
primeiro lugar no ranking. No Brasil, o tema é discutido há cerca de 12
anos.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a área de cuidados
paliativos é considerada uma abordagem que serve para promover qualidade de vida
para pacientes que tenham alguma doença que o ameace de morte. No Brasil, a área
ainda está muito ligada a pacientes terminais, principalmente com câncer. No
entanto, para a OMS, essa área não deve se restringir apenas a doentes
terminais, mas também a pessoas que recebem diagnóstico de doenças crônicas e,
até, para pacientes vítimas de acidentes.
Os cuidados paliativos devem envolver uma equipe multiprofissional formada
por médicos, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais, fisioterapeutas e
terapeutas ocupacionais que tratam das dores físicas do paciente e também das
dores emocionais por estarem tão perto da morte. A abordagem também se estende à
família do enfermo para que todo o processo seja aceito com a maior naturalidade
possível e com o mínimo de sofrimento.
"Tudo isso tem que se estender para a família, entender que quando alguém
adoece todo o núcleo familiar adoece junto e, se eu não cuido dessa família, que
também adoece não só emocionalmente, mas às vezes fisicamente, eu não estou
oferecendo esse atendimento global efetivo e extensivo para todos os componentes
para esse núcleo familiar e afetivo", disse Hélio Bergo, chefe do Núcleo de
Cuidados Paliativos da Secretaria de Saúde do Distrito Federal.
"Uma vez que há cuidados paliativos, a qualidade de morte melhora
sensivelmente. Morrer, nós vamos morrer de qualquer jeito. Morrer de uma doença
crônica em sofrimento é algo triste, inadmissível. Os cuidados paliativos
cumprem essa missão de melhorar a qualidade de morte", disse Bergo.
Fonte: http://www.gazetadopovo.com.br/saude/conteudo.phtml?tl=1&id=1298152&tit=Cuidados-paliativos-deveriam-virar-politica-publica-dizem-especialistas- acessado em: 25/09/212