13 Considerações ao Assistir "Thirteen Reasons Why"

Série produzida pela "Netflix" e lançada em 2017, sobre a obra homônima de 2007, escrita por Jay Asher, retrata a história fictícia do suicídio de Hannah Baker, cujo enredo foca-se na gravação de fitas de áudio por ela, sobre os 13 motivos de seu ato autodestrutivo final.
Série controversa sobre seu potencial de esclarecimento sobre a temática, versus o risco de incentivar a prática de tais atos, em adolescentes em situações de igual vulnerabilidade psicológica, requer algumas considerações antes de assistir aos episódios:

1) Pessoas com quadros de ideação suicida, presente ou passada, devem evitar assistir à série, tendo em vista os potenciais impactos de tais conteúdos, especialmente as cenas finais gravadas simulando a ocorrência. Não há suicídio sem ideação prévia e, uma vez presente tais pensamentos, há que se buscar ajuda familiar ou profissional imediatamente;

2) O enredo da série é bem elaborado e aclamado pela crítica, a cativar o telespectador em desvendar, a cada episódio, o conteúdo de uma das fitas deixadas pela suicida, projetando a responsabilidade pelo seu ato em pessoas de sua convivência escolar;

3) A série volta-se a enfrentar a temática do suicídio no período da adolescência, uma dos maiores faixas expostas ao problema, inclusive no Brasil, um tema em alta em razão do "jogo da baleia azul";

4) Até o sexto episódio, a série demonstra como a adolescência, enquanto momento de estruturação afetiva da personalidade, é exposta a conflitos, dificuldades afetivas e frustrações que são corriqueiramente enfrentadas e superadas, com resiliência, pela maioria dos adolescentes, sem que isso demonstre problemas psíquicos somente por viver esta fase do seu desenvolvimento;

5) Como a adolescência se trata de um momento de transformações existenciais em curso, é de se esperar paixões, grupos de amizades, experiências e experimentações, despertar para a sexualidade/opções afetivas, dúvidas, receios e angústias. São as respostas pessoais a cada um destes estímulos que dirão se há algo de anormal, no desenvolvimento de cada personalidade;

6) A partir do sétimo episódio, a série começa a expor traços de uma estruturação psicótica melancólica em Hannah Baker, tais como sua dificuldade em lidar com as frustrações e desafios da adolescência que, aos poucos, irá materializar o quadro de isolamento, depressão e ideação suicida;

7) Os áudios gravados por Hannah demonstram sua versão dos fatos, a partir de sua apreensão pessoal do mundo. Por vezes, descolada da realidade, a exemplo de quando Zach apresenta a Clay a carta entregue por Hannah, contrariando o que ela havia dito na gravação; ou ainda, entendendo que Clay a odiava. Delírios psicóticos são esperados em quadros graves de transtorno, tais como fantasias de perseguição, projeções negativas e falsas leituras da realidade, com foco negativo e geralmente carregado emocionalmente sobre os fatos;

8) A questão da resiliência da maioria dos jovens em geral é demonstrada na série. Ocorrências de "bullying" escolar, sexting e conflitividades, não geram automaticamente quadros melancólicos como o de Hannah;

9) Considerando uma estatística aproximada de 30% da população possuir estrutura psicótica (não sintomática), sendo 10% deles melancólicos, e destes, 5% depressivos, dos quais só metade adentram a quadros sintomáticos, a série demonstra como tais ocorrências graves são restritas a pequena parcela da população jovem, geralmente aqueles de maior vulnerabilidade psíquica; Isto não serve para minimizar o problema individual, mas sim, para evitar uma generalização de que essa ocorrência seria algo epidêmico entre jovens;

10) A projeção da responsabilidade pelo suicídio nas 13 gravações é algo estranho a psicóticos melancólicos que, em regra, introjetam (assumem) para si a culpa, das desventuras e frustrações vividas e se punem portanto. Isto é um ponto falho no enredo da série, o que justificaria muito mais a ação vingativa de um atirador contra os "13 culpados" do que essa autodestruição. Veja a exemplo da postura de Tyler, a partir de seu arsenal bélico possuído e do rancor demonstrado no seu depoimento judicial ao final;

11) Violência sexual está na etiologia de casos de tentativa de suicídio, especialmente quando a vítima não tem o suporte necessário para lidar com o ocorrido. Abuso de drogas, nestes casos, pode ser utilizado como mecanismo de fuga, assim como o suicídio; O fato de Hannah sair de sua casa e ir à casa do estuprador de sua amiga, colocar-se sem roupa na banheira e ficar lá até o final da festa, e sofrer o mesmo tipo de abuso sexual, indica a presença de pulsão destrutiva em sua personalidade, pois ela procura uma justificativa final, consciente ou inconsciente, para realizar o ato suicida e assim, retirar de si a responsabilidade pela autodestruição a ser realizada; Não se trata de atenuar o ato, do ponto de vista do abuso sexual (a ser punido), mas sim, observar sua função do ponto de vista da suicida, que se coloca passível de ocorrer, tendo em vista o que já havia ocorrido com sua amiga;

12) Grande parte das tentativas de suicídio em jovens melancólicos são feitas pelo uso de métodos pouco eficazes, cuja finalidade, consciente ou inconsciente não é obter o desfecho destrutivo, mas sim, externalizar e chamar a atenção para o quadro vivido. Trata-se de um pedido de ajuda de quem não consegue verbalizar o sofrimento. Por outro lado, seria mais provável que a amiga de infância de Clay, Skye, cuja estrutura borderline é demonstrada por sua necessidade de automutilação corporal, teria maiores propensões a realizar um ato efetivo de suicídio do que Hannah;

13) Desestruturações familiares também podem estar na etiologia dos casos de suicídio juvenil, o que não é verificado na série, uma vez que, Hannah, tinha apoio familiar e uma família estruturada. O fato de seus pais passaram por problemas financeiros e terem pouco tempo à filha não é ensejo ao suicídio, o que seria, mais uma vez, projetar responsabilidades pela decisão de autodestruição. 

Em suma, a série é polêmica, mas traz a problemática do suicídio juvenil à tona e merece ser assistida por profissionais da área, pais e educadores. A temática é importante no contexto de vida dos adolescentes, mas não deve ser considerada como dentro de um contexto epidemiológico. Há sim, sua ocorrência predominante nesta faixa etária, mas isso não indica que as ocorrências verificadas, dentro das estatísticas de saúde pública, tenham ampliado sua incidência nos últimos anos.