Baleia Azul enquanto Sintoma e não Causa

Há uma necessidade midiática de produzir situações fantásticas, as quais seriam as grandes responsáveis por ocorrências que, dentro de um padrão contínuo de realidade, são apenas sintomas de condições humanas para além daquele momento. Assim ocorre com o chamado jogo da "Baleia Azul", caracterizado atualmente como o grande responsável pelos suicídio de jovens. Num país que figura em oitava posição do rol de ocorrência de suicídios no mundo, isso é uma mera tolice.
Jovens e idosos, no mundo todo, são os grandes grupos etários estatisticamente mais sujeitos à prática do suicídio. Representam dois momentos da vida humana em que o indivíduo está em grandes transformações e por isso, tais rituais de passagem podem trazer desconforto e, em alguns casos, um alto grau de sofrimento.

Nesse sentido, o suicídio nada mais é do que uma válvula de escape ao sofrimento, uma última saída, para quem não vê outra forma de lidar com o conjunto complexo de emoções e sofrimentos vividos. Trata-se de uma escolha derradeira ou uma maneira de chamar a atenção, por vias tortuosas.

Do ponto de vista libertário, cada um é dono de si e de sua vida, manejando sua existência da melhor forma que provier. Há suicídios lentos, no uso de tabaco ou outras drogas (incluindo excessos alimentares), por exemplo, que passam desapercebidos pelas estatísticas. São formas de morrer lentamente, em autodestruição parcimoniosa, quando o instrumental, o "jogo da baleia azul" em maços de nicotina, é vendido livremente e tragado em qualquer local público.

Nesses casos, para Freud, nos ciclos da vida, há uma pulsão destrutiva a par de uma pulsão de vida. Isso é previsto na dinâmica da vida mental neurótica. Tais mecanismos de adaptação e suporte da vida são aceitos e nada se questiona sobre este papel psicológico de realizar um suicídio lento do corpo, ao se usar substâncias de destruição corporal no longo prazo.

Diferentemente, no jogo da baleia azul, há um espaço da projeção de responsabilidades, como se o suicídio do jovem tivesse ocorrido não por seu desejo de autodestruição, mas sim, por algum psicopata capaz de controlar as mentes e induzir à realização de algo não querido pela pessoa. Sadismos só existem a partir de masoquismos que os complementam. E muitos masoquismos começam muito antes, na infância perante famílias desestruturadas, violência e maus tratos e abuso sexual.

Ledo engano, na mente do potencial suicida, a adesão este tipo de jogo está predisposta, seria uma forma de aliviar a decisão de autodestruição já anteriormente tomada. Um paliativo projetivo para suportar as dúvidas até efetivar a destruição do corpo.

Geralmente afeita às personalidades "borderline" em transtorno, a automutilação observada em fases iniciais do jogo baleia azul é a mesma já realizada há tempos, por indivíduos com estes traços psicóticos. Nada difere de novo, apenas se dá uma nova explicação projetiva ao ocorrido. Amy Winehouse é um exemplo clássico deste tipo de personalidade.

Por outro lado, também serve de válvula de escape de responsabilidades paternas e maternas, onde se projeta a falta de atenção e cuidado com o filho no jogo, como se tudo tivesse sido feito e se iniciado somente depois de adesão a este.

Do ponto de vista terapêutico, há uma busca de sentido a ser questionada nesses casos. Tanto sobre o sentido de optar pela morte, quanto o sentido de não se optar por ela. Viktor Frankl, na obra "Em busca de sentido", a partir de suas experiências enquanto judeu preso num campo de concentração nazista, demonstra que o sentido de viver, paralelo ao de morrer, decorre de cognições realizadas pelo indivíduo, em relação ao que se esperar da vida, em condições de sofrimento.

Portanto, a criação de sentido de viver requer rever as cognições escolhidas aos jovens em sofrimento, dentro de opções daquilo que eles podem construir para si alternativamente, e podem esperar enquanto resultados reais e factíveis de seus esforços, para se livrar daquela condição de padecimento, sem que a saída derradeira seja a autodestruição.

Pais devem focar no ensino do correto enfrentamento das frustrações normais da vida cotidiana, pelo fortalecimento das pequenas coisas, das pequenas bençãos, dos prazeres possíveis de dar sentido a cada momento, a gerar importância a maior na vida do dia a dia compartilhado em família. A força do exemplo é essencial à estruturação correta da personalidade adolescente, nesta fase da vida, pois famílias desestruturadas tendem estatisticamente a influenciar a depressão juvenil, cujo sintomática neuroquímica, muitas vezes também não é a causa, mas um sintoma conformativo.