Tanatofobia e Direito DEpartir

Por Tanatofobia entende-se o medo da morte. Talvez o problema cultural maior do ser humano não seja a morte, mas sim, como lidar com essa ocorrência. Seu imprevisível devir e o contexto de finitude da vida que sua presença acarreta, levam ao afastamento das discussões sobre o assunto.

Aparentemente o melhor é viver, afastando-se completamente da temática da morte, aqui chamada de dessoma, só a evocando na velhice ou naqueles momentos de enfermidade inevitável em que ela surge na vida de cada pessoa.

É um tema tabu. Não se quer falar, nem ao menos pensar sobre o assunto. Quer-se distância de qualquer coisa que o envolva, tratando-se de cemitérios, funerárias, UTIs, necrotérios, crematórios.

Por seu turno, as religiões trabalham o tema no sentido de estabelecer respostas espirituais para a dessoma, dentre hipóteses de conforto, de segurança e acolhimento no pós-vida física.

A filosofia já discorreu muito sobre o assunto ao se discutir sobre o existencialismo, a metafísica e a imortalidade.

As ciências tentam provar algo para além da desativação física do corpo, após o encerramento das ondas cerebrais, mas não obtiveram resultados conclusivos sobre qualquer hipótese até o momento.

No meio de tanta incerteza sobre o assunto, o medo do desconhecido se apresenta e dirige os pensamentos de todos para além de qualquer discussão sobre a dessoma.

Talvez o melhor entendimento possível, seja o de que entre a vida e a morte exista uma proximidade atemporal, numa interpretação menos carregada do assunto.

Isso ocorre porque, enquanto pertecentes a mesma parte de um todo, a vida e a morte são partes do mesmo mecanismo universal dos ciclos existenciais no planeta.

Há que se entender que sempre que se vive, se morre. Mas também há que se entender que, sempre que se morre, nova vida surge.

Essa complexidade em interação, a partir das ciências básicas, pode ser entendida pelo fato de que a cada momento novas células nascem enquanto outras morrem e isso é necessário ao equilíbrio biológico de cada corpo e também do todo.

O importante não é deter a morte, mas permitir que a vida, na sua sequência continua, flua da melhor maneira possível. Logo, favorecer o ciclo normal e ético dessa fluição é o foco a ser dado, a partir do estabelecimento das melhores práticas possíveis na área jurídica, médica e psicológica.

Dentro deste contexto é que formulamos a idéia de um Direito DEpartir. Trata-se de um direito de fluir, de reconhecer o momento vivido e estabelecer os aportes necessários para o contínuo futuro, dentro do ciclo normal da vida.

Como dito no início, o problema não está na dessoma, mas sim na forma de se lidar com ela. Desse modo, ao se entender que a partir da possibilidade de dessoma uma nova de viver se estabelece, o contexto das coisas se modifica e, certas e necessárias decisões a serem tomadas no caminho pode ser simplificadas e desdramatizadas.

Colaborar nesse caminho de decisões e ações é a nossa proposta de trabalho.