Máximas de Baltasar Gracián sobre a Partida

Grande pensador do barroco espanhol do século XVII, Baltasar Grácián, filósofo e jesuíta, foi elogiado por Lastanosa, Voltaire, Goethe, Lacan e Schopenhauer, que o traduziu para o alemão. É pouco conhecido no Brasil, mas seu afinado pensamento permaneceu imortal no transcorrer do tempo.



Na obra lançada no Brasil, pela editora Sextante, chamada "A Arte da Prudência", as principais máximas do seu pensamento podem ser encontradas, incluindo algumas sobre a partida, como poderá ser observado a seguir.
"Atenção ao desfecho: deve-se estar mais atento a um final feliz do que a uma entrada triunfal. É frequente que as pessoas de sorte tenham inícios favoráveis e fins trágicos. O que importa não é receber aplausos na entrada - o que é muito comum - mas continuar a ser aplaudido na saída, fazer falta ao partir, o que é mais caro" (2006, p. 31 - grifo nosso).
Interessante a utilização do termo partida. Apesar do autor não se referir à morte, nessa passagem da obra, é claro que sua máxima se aplica e ela, uma vez que reconhece que, às pessoas de sorte na vida, o fim tende a ser mais trágico do que daqueles que passaram grandes privações e adversidades. Isso é comprovado nos estudos sobre os pacientes terminais, sendo os mais sofridos, aqueles cuja vida foi de benesses e facilidades.
Assim, a perda é mais sentida por aqueles que estão bem servidos na materialidade da vida. "Fazer falta ao partir, o que é mais caro", tem esse significado de imortalidade, de deixar sua marca no tempo, na histórica, uma opção de sublimação perante a tragédia que a morte pode significar a quem tudo de bom ganhou da vida.
Em outra passagem de sua obra, ele reforça esse entendimento:
"Uma das máximas das pessoas prudentes é deixar as coisas antes que elas nos deixem. Deve-se saber transformar em sucesso até a morte. Ás vezes, o Sol, com boa luz, se retira por trás de uma nuvem para que não o vejam se deitar e deixa a dúvida se já se pôs ou não" (2006, p. 47).
Nessa máxima, Baltasar Gracián deixa claro que a partida há que ser preparada. O importante é saber preparar a saída. Com isso, a pessoa pode buscar um espaço de imortalidade, semeando o campo, com destinação de recursos à assistência terrena.
Por último, uma passagem que leva à questão da ortotanásia e do testamento vital para reflexão:

"Quando mais revolto o mar, mais prudente é retirar-se para um porto seguro, deixando as coisas como estão. Muitas vezes os males pioram com os remédios. Há algumas situações em que se deve deixar a natureza agir, enquanto em outras deve-se deixar a moral. O bom médico sabe quando receitar ou não o remédio, pois a arte está em não aplicar remédio algum. Para acalmar a tormenta, deve-se deixá-la de lado. Render-se ao tempo trará a vitória depois" (2006, p. 56).


Fonte: GRACIÁN, Baltasar.  A arte da prudência.  Rio de Janeiro:  Sextante,  2006.