James Lovelock, na década de 60, criou a teoria do Gaia, de que a Terra seria um organismo vivo, composto com suas unidades biológicas de fauna e flora, dentre as quais figuram os seres humanos. Assim, cada ser humano poderia ser considerado uma célula do organismo Gaia, a desempenhar um papel importante na sua existência.
Na Teoria dos Dois Gaias que desenvolvemos, a Terra seria o Gaia Maior, respeitando a ideia original de James Lovelock. Por seu turno, o organismo de cada indivíduo humano seria o Gaia Menor, composto também por unidades biológicas básicas, as células.
Dentre as células, dois grandes grupos tem grande destaque e podem influenciar a existência do Gaia Menor, metaforicamente a exemplo do que cada indivíduo representa no conjunto da população da Terra, influenciado na sua capacidade de suporte e manutenção da vida, por conseguinte.
O primeiro grande grupo é o das células funcionais. Decorrentes da célula tronco originária na concepção, cada célula somática ou funcional vai ganhando competências específicas no organismo, conforme mecanismos específicos de ativação de partes do DNA, determinando a função individualizada a ser cumprida por aquela célula.
Num ciclo existencial regular e fisiológico do organismo, há um conjunto de aproximadamente 6 trilhões de células somática atuando em harmonia, realizando suas funções para a manutenção do todo, dentro de um ciclo ecológico de produção, consumo e reciclagem.
Como na vida do Gaia Maior, há uma capacidade de suporte dentro do Gaia Menor, ou seja, haverá homeostase fisiológica, enquanto o ciclo ecológico for respeitado pelo conjunto de células e assim, o organismo estará preservado e manterá sua saúde.
Uma vez rompido o ciclo, adentra-se ao desequilíbrio que será sentido nos sinais vitais humanos primeiramente (respiração, batimento cardíaco, pressão arterial, temperatura), até que se possa, sem correção de curso, levar o organismo à morte.
Mas, uma vez mantido o equilíbrio, como está na programação de DNA das células somáticas, o organismo continuará indefinidamente em homeostase.
Um segundo grupo de células, também importantíssimas, comporá o chamado sistema imunológico, contendo um rol diferente de células voltadas a garantir a segurança do organismo, perante invasores externos que possam querer se aproveitar da homeostase.
Mas não é somente essa a função das células imunológicas (macrófagos, linfócitos, leucócitos, neutrófilos, basófilos, células Natural Killer), elas também tem a função de verificar se as células somáticas estão cumprindo sua função e, caso não estejam, se essa disfunção está causando prejuízos às demais células.
Uma vez verificado isso, as células de defesa devem retirar a célula disfuncional e assim, preservar a homeostase do organismo.
Existem certas células somáticas que, uma vez tornadas disfuncionais, por sua alteração do DNA, não foram devidamente retiradas pelo sistema imunológico e, porventura, podem se multiplicar indevidamente. São chamadas de células cancerígenas ou neoplásicas.
Tais células tornam-se poluidoras do Gaia Menor, quando então seu equilíbrio comprometido. Podem se multiplicar indefinidamente milhares de vezes e assim consumir recursos e destruir funções essenciais para a sobrevida do Gaia Menor.
Trazendo-se isso para o Gaia Maior, até que ponto se pode analisar o papel existencial de cada indivíduo enquanto unidade biológica desse grande organismo. Somos, a exemplo das células somáticas, seres a cumprir seu papel e não causar danos ao todo?
Ou estaremos entre o bem e o mal, entre aqueles que podem ser considerados poluidores e aqueles que atuam pela proteção ambiental da "homeostase" do Gaia Maior?
As escolhas do papel podem ser refeitas a cada momento, pois o papel no Gaia Maior reflete aquilo que não se quer receber no Gaia Menor. Pode-se até seguir a vida, como a maioria faz, enquanto células somáticas cumprindo suas funções básicas. Mas, por outro lado, pode-se fazer a opção por se somar ao conjunto do sistema imunológico global, contribuindo para a proteção das condições de vida no planeta.
Assim, como cada dia o Sol nasce novamente para todos, há sempre a possibilidade de se buscar uma melhoria no papel individual na Terra. Uma vez identificado o impacto pessoal perante o Gaia Maior, há que se fazer a opção por se zerar as pegadas ambientais desde já, adotando um modelo de vida individual, mais coerente com as possibilidades globais de manutenção da sociedade humana (minimalismo). Mais que isso, ao se adotar a proposta de uma "imunologia da sustentabilidade", deve-se adentrar a uma ação efetiva em defesa do Planeta e na mitigação dos excessos do conjunto, que estão retirando a capacidade de suporte da vida.
Enfim, a pergunta que resta é essa: qual célula do Gaia Menor seria a sua representação no Gaia Maior: uma célula somática em equilíbrio, uma célula imunológica ou uma célula somática disfuncional?