Toda vez que um caso de suicídio acontece, inúmeras análises são feitas sobre o ocorrido, como se evitar novos atos e se alguma falha ou omissão poderia ter evitado a ocorrência. Dificilmente o assunto será tratado naquele rol das liberdades individuais máximas, dentro das quais está a do indivíduo destruir-se por sua livre opção, discernimento e autonomia.
Alguns teóricos e especialistas vão negar que esta opção destrutiva final possa ser feita enquanto algo com discernimento. Para estes, haverá sempre, nestes casos, algum tipo de transtorno, melancolia ou intenso sofrimento existencial, a motivar esta saída trágica.
Por exemplo, nos casos de suicídio assistido, o intenso sofrimento do paciente terminal, permite, em algum países, sua opção pelo término antecipado da vida, com fundamentos na dignidade e no fato de que o prognóstico da terminalidade já está definido.
Porém, como lidar com situações de sofrimento apenas psíquico, onde há transtornos ou melancolia em curso e a morte aparenta-se como único prazer disponível, a partir de uma pulsão destrutiva?
Para a Psiquiatria, a saída pelo tratamento medicamentoso pode fazer o controle parcial da ideação suicida, porém, sem garantias de que, no longo prazo, tais estabilizadores possam evitar a materialização das pulsões destrutivas.
Interessante observar como existem psiquiatras que fazem uso de medicamentos psiquiátricos, para controlar sua própria falibilidade de controle sobre a saúde de seus pacientes. Aparentemente num contexto contra-transferencial, sua saída é utilizar-se das mesmas armas que disponibiliza aos demais.
Isso leva ao fato de que, para além do espaço neuroquímico do sofrimento psíquico, existe algo além, há uma personalidade em avanço disruptivo no fundo, a qual encontra, na saída derradeira do suicídio, a paz e o conforto para o seu estado de mal-estar contínuo e crônico.
Do ponto de vista conservador, religioso, isso será algo impensável, a exigir medidas higienistas, para que políticas públicas sejam impostas a tais casos, já que não se tolera socialmente tal premissa de que a morte poderia ser uma opção a quem não vê opção nenhuma saída pela frente. Negar a morte é uma forma de defesa da própria vida, de evitar a presença da sensação de fragilidade e finitude da vida humana.
Do ponto de vista libertário, a morte somente seria uma premissa aceita, enquanto autonomia e liberdade individual, conquanto todos os meios, recursos terapêuticos e possibilidades de outros prazeres tivessem sido esgotadas pela pessoa, a ponto de ser o suicídio a única opção restante, em seu repertório de possibilidades.
Na Logoterapia de Viktor Frankl, expressa na obra "Em Busca de Sentido", ele relata sua experiência num campo de concentração durante a 2.ª Grande Guerra Mundial, sobre como existiam pessoas que simplesmente desistiam e se entregavam à morte, enquanto outras buscavam se manter hígidas a partir de um sentido de vida a ser elegido, mesmo sob aquelas condições extremas.
Deste ponto de vista, todas as pessoas em intenso sofrimento, inclusive um paciente terminal, antes de concluir-se pela saída derradeira, deveriam optar por apoio psicoterapêutico, a fim de enfrentar seus dilemas existenciais diretamente com seu terapêutica de sentido.
Ou seja, devem assertivamente poder expressar em terapia seu desejo de terminalidade, colocar isto as claras, assim como suas motivações e sofrimentos em curso. Para tanto, deveria optar por um terapeuta despido de higienismos e moralismos, capaz de compreender o dilema existencial em curso e posicionar-se não somente enquanto Superego externo ao paciente ("não faça isso").
Deve tal terapeuta também posicionar-se obrigatoriamente enquanto Ide, a identificar os prazeres em vida para além desta saída ("o porquê de não fazer isso"), a demonstrar que sempre há algum sentido de realização humana prazeiroso que pode ser atingido, bastando para tanto, sua correta busca e canalização existencial.
Isso é necessário porque o sofrimento restringe a visão, o alcance do discernimento sobre as possibilidades e as potencialidades humanas de realização, prazer e contentamento. Condição a ser reificada e superada somente com a ajuda do logoterapeuta. Não que se espere como resultado da terapia a eleição da vida, porém, haverá uma dúvida a favor do prazer de viver, além de valiosos argumentos de que a opção pela morte também não seria uma boa ou a única saída.
