A Coisificação do Paciente Terminal

O avanço da tecnologia médica traz seus paradoxos. Um deles é a possibilidade de prolongação artifical da vida, movida por equipamentos que podem substituir a função vital de órgãos e assim manter a homeostase corporal.

Num ponto de vista humanitário inicial, esses avanços são uma benção ao permitir a continuidade da vida e devem ser utilizados sempre que se for necessário.

Por outro lado, paradoxalmente, esses procedimentos podem causam um prolongamento inadequado da vida, cujo custo seja a manutenção de dores crônicas agudas e intenso sofrimento, os quais poderiam se assemelhar a situações de tortura, mormente quando são adotados contra a vontade do paciente e sua dignidade existencial.

Do ponto de vista financeiro, estatísticas demonstram que um paciente terminal podem gastar, em média, 25% de seu patrimônio, no último ano de seu tratamento, antes de vir a óbito. Logo, gastos cada vez maiores, para resultados que não tiveram o condão de evitar o desfecho morte.

Pode-se argumentar que esse tempo valioso de um ano é imprescritível, que a oportunidade de se conviver com o ente querido por esse tempo, foi valiosa e que, se fosse possível prolongá-la ainda mais, mesmo ao custo de 100% do seu patrimônio, isso teria valido a pena.

Esse último argumento é válido e precioso. A luta pela vida é essencial e a ela se faz com todos os que se ama, especialmente nossos entes queridos mais próximos, pais, filhos, esposos, companheiros, avós.

A única ressalva a essa atitude, que deve ser muito ponderada nos momentos em que as emoções estão exaltadas pela possibilidade da morte do ente querido, estão relativas a aquilo que Elisabeth Klüber Ross, em sua obra "Sobre a Morte e o Morrer", qualificou com coisificação do ser.

Para entender o assunto, ela cita o exemplo que ela acompanhou quando jovem, do pai da família acometido por um acidente que, recolhido ao seu lar, por ausência de avanços médicos à epoca, teve o tempo necessário para se despedir da família, dividir os bens e as responsabilidades empresariais que possuía.

A partir desse exemplo, ela descreve o outro lado, aquilo que virou rotina hospitalar, a partir dos avanços atuais da Medicina, em que ela acompanhou no seu trabalho de cuidados paliativos: a coisificação do ser.

A coisificação do ser começa na entrada da ambulância, durante o chamado de emergência durante uma crise do paciente terminal. Nesse momento, a pessoa perde a identidade e passa a ser considerada não mais um indivíduo, mas um corpo sem vontade, cujo único objetivo e ser mantido vivo a partir dos seus sinais vitais.

Ela sai do seu lar, do conforto da famíla e segurança, adentrando a uma ambulância, com pessoas estranhas que lhe ligam a equipamentos e lhe fazem infusões e outras perfurações que se fizerem necessárias à manutenção da vida.

Já no hospital, ela passa a ambientes gélidos e isolados, recebendo mais tratamentos, sem os quais tenha o direito de optar por sua adoção, pois a manutenção da sua vida passa a ser um valor acima de sua identidade. Sua vontade agora será expressa por algum familiar próximo perante a equipe médica, enquanto a própria pessoa passa a ser tratado como um observador despersonalizado do seu próprio ser.

Ligado a máquinas, a barulhos, cheiros, pessoas estranhas, sem privacidade nenhuma, o paciente nesse estado acaba por perdes seu direito de partir em paz, ao silêncio e a fazer opções, como a de voltar ao seu lar, ao seu conforto, à convivência da família nos momentos que lhe restam.

Liga-se a isso a sensação de solidão, a impotência perante o destino que, somadas à dor causada pela conexão a certos procedimentos e equipamentos de manutenção, retirm-lhe totalmente a dignidade.

Face a isso, que o Conselho Federal de Medicina, estipulou a Resolução 1.995/2012, sobre as diretivas antecipadas de vontade. Por elas, é direito de todo paciente optar por não receber tratamentos que apenas prolonguem a vida artificialmente, mediante dor e seu sofrimento, evitando manter-se ligado desnecessariamente a equipamentos.

Com isso, uma vez detectado pelo médico o quadro de terminalidade, há que se entender os limites da tecnologia médica, para se evitar a qualquer custo a coisificação do ser. Essas opções devem ser tomadas perante o médico (daí o seu dever de informar ao paciente sobre sua situação terminal), assim como perante a família.

O direito à partida digna é um direito inalienável ao paciente terminal, assim como também é sua direito à vida. O que se deve ter em mente, será sempre o bem-estar do paciente, retornando o conceito da partida a um momento privativo e espiritualizante, muito além de sinais vitais, máquinas e ambientes hospitalares.

Reflita sobre isso com carinho, sobre você ou seu ente familiar querido.