A Espiritualidade da Partida

Salvo os casos de materialismo convicto, o que gera o ceticismo quanto ao final da vida, levando o indivíduo ao ateísmo, nos demais casos a espiritualidade estará sempre presente na partida.


Independente da religião ou filosofia de existencialismo adotado, o contexto espiritual é algo a ser entendido e respeitado na partida, a critério dos valores individuais de cada um.

Para o médico Harold G. Koenig, na obra "Medicina, Religião e Saúde", a espiritualidade deve ser entendida num conceito amplo e flexível, "que inclua tudos religiosas e não religiosos e seja autodefinida pelos próprios pacientes" (2012,  p.20). Assim, cada necessidade espiritual passa a ser individualizada, conforme os valores e as crenças formadas.

Não obstante essa presença da espiritualidade na vida da maioria das pessoas, a partida acaba sendo um momento de dor, angústia, ansiedade, perda, de sensação de castigo ou mesmo de condenação. Mas por que esse sentimentos florescem?

As teorias psicanalíticas explicam isso levando em consideração o medo inconsciente e da incerteza quanto à própria morte, vivido não só pelo paciente terminal, mas também pelos familiares em relação a si próprios.

Outrossim, a formação cultural do sentir revela nessas horas uma avalanche de emoções represadas, paradoxais, cuja ocorrência acabam por afastar a conotação espiritual do processo em curso.

A influência dessa questão cultural pode ser verificada em alguns povos primitivos, que festejam com alegria a partida, já que este fato representa o retorno do ente querido ao pachamama, ao ventre da mãe terra.

Assim, o contexto da partida pode ser ressignificado por todos nós. Sai de lado a dor pela perda e entra em cena a compreensão terna pelo retorno do ente querido à sua origem espiritual, após a conclusão de sua mandato existencial atual e consequente desativação do corpo.

Isso implica em transformar a partida num evento emocionalmente positivado, pois se está diante de uma grande transformação, da libertação corporal, de partida para um novo nível existencial.

Essa reformulação pressupõe novos compromissos existenciais, uma vez que, se a existencia permanece, independente do corpo, esse processo contínuo não pressupõe um fim, mas um recomeço de outra fase, a qual não seria a primeira, nem a última a ser vivida.

Outrossim, essa inteligência pressupõe novas valores aos familiares, que também adentram ao seus próprios processos, revisam no presente valores e avaliam suas próprias partidas futuras, pensando assim, nos seus feitos do passado e no que ainda requer ser cumprido no presente mandato existencial.

Essa opção ou entendimento espiritual do processo existencial humano está presente na conceitação do Direito DEpartir. Por isso, a importância de se ressignificar e desdramatizar a partida, a um novo nível de maturidade existencial, localizando a fase prévia em cuidados paliativos, enquanto momento de transformação existencial a todos do grupo familiar

Como dizia Elisabeth Klüber Ross, é quando a borboleta deixa seu casulo que ela demonstra todo o seu esplendor.