Por que rejeitamos a Partida?

Rejeitamos a morte porque nosso inconsciente, em condições normais, não reconhece nossa finitude. Para este plano interno da psiquê, nossa existência é imortal. Esse narcisísmo de sobrevivência, se assim se pode dizer, é essencial à vida, faz parte do "eros", do instinto de autopreservação da espécie.

Da esfera individual para a esfera coletiva, observa-se que nossa sociedade cultua essa noção inconsciente de imortalidade. O culto à eterna juventude, aos procedimentos estéticos, vitaminas e medicamentos anti-age estão ai para comprovar essa busca inconsciente pela importalidade.

O que dizer de se falar abertamente sobre a morte? Tal assunto será evitado ou ignorado ao máximo em qualquer roda social, até mesmo dentro de hospitais. Procure puxar esse assunto e perceba a reação das pessoas. Umas tenderão a mudar rapidamente de assunto, outras sairão de perto e algumas até lhe admoestarão sobre sua preferência em falar desse assunto.

Para Elisabeth Kluber-Ross, na obra "Sobre a Morte e o Morrer", antes a religião tinha espaço central no tocante à discussão sobre a morte, já que todo sofrimento tinha em vista uma recompensação futura no pós-vida. Já numa sociedade moderna, que rejeita a mortalidade, o espaço da espiritualidade é reduzido cada vez mais, aumentando a ansiedade quando se toca no assunto.

Com isso, a sociedade, ao rejeitar a morte, acaba por rejeitar também os pacientes que estão em processo terminal. A essa pessoa resta a qualquer custo somente a saída material, dada pela própria sociedade, à tecnologia médica disponível para o seu orçamento, para evitar a morte. Mesmo que este desfecho já esteja definido, nenhuma opção diversa é dada salvo a possível escravidão às máquinas hospitalares, sem sentimentos ou mensurações de dor ou do sofrimento perpetuados.

"Embora todo homem, por seus próprios meios, tente adiar o encontro com estes problemas e estas perguntas enquanto não forçado a enfrentá-los, só será capaz de mudar as coisas quando começar a refletir sobre a própria morte, o que não pode ser feito no nível da massa, o que não pode ser feito por computadores, o que deve ser feito por todo ser humano individualmene. Todos nós sentimos necessidade de fugir a esta situação; contudo, cada um de nós, mais cedo ou mais tarde, deverá encará-la. Se todos pudéssemos começar admitindo a possibilidade de nossa própria morte, poderíamos concretizar muitas coisas, situando-se entre as importantes o bem-estar de nossos pacientes, de nossas famílias e talvez até do nosso país" (KLUBER-ROSS,  2012, p.22).

Ao se buscar uma concepção espiritualista, independente de qualquer religião, de que a morte é somente uma passagem e não o fim, surge um novo contexto de possibilidades ao indivíduo, quando confrontado pela temática em sua vida, o qual poderá então fazer as melhores opções conscientes neste percurso da partida.

Esse retorno a uma crença sobre a espiritualidade, já que cientificamente não se pode provar a existência de vida for do corpo físico, é muito mais saudável ao transcurso do paciente do que qualquer posicionamento materialista em contrário, e isso já é provado cientificamente, conforme relata o médico e pesquisador Harold G. Koenig, na obra "Medicina, Religião e Saúde".