Da morte natural à partida

A tecnologia avança no sentido de buscar a imortalidade. São novos medicamentos, técnicas, aparelhos e, quando nada mais for possível, que tal digitalizar o cérebro e viver infinitamente na web? Há ainda as ofertas de criogenia, para congelamento dos corpos até se achar a cura e logicamente também uma maneira também tão questionável de ressuscitar os mortos.

 
Antes morrer era um acontecimento natural e espiritual. Uma passagem natural a ser vivida por todos em algum momento, no lar, em companhia da família. Agora, morrer é um ato hospitalar, uma derrota ao desforço terapêutico.


No entanto, como prevê o médico e pesquisador Harold G. Koenig, na obra "Medicina, Religião e Saúde", o futuro, com os avanços da longevidade e envelhecimento da população, reserva-nos um encarecimento sem precedentes dos procedimentos de saúde, assim como o déficit de instituições de saúde habilitadas a lidar com o tratamento intensivo dessa população.
 
Esse caminho tende a reabrir as portas a uma nova espiritualidade da partida, construída em premissas de que a vida é algo mais que sinais vitais a serem mantidos por medicamentos ou equipamentos médico-hospitalares. Isso permite voltar-se ao contexto da vida como um estado de consciência qualitativo, com ou para além do corpo, tendo a morte como uma passagem a ser vivida nessa jornada sem fim.
 
Mas como modificar as demandas de hospitalização, nas quais o paciente e a família colocam toda a esperança? Talvez, vencer o mito da imortalidade pelo uso da tecnologia hospitalar não seja algo fácil ou possível. O que será necessário, no entanto, é estabelecer os limites ao uso de unidades de tratamento intensivo, esclarecendo-se que, a obstinação terapêutica tem limites fisiológicos, a partir dos quais seu uso passa a ser considerado "inútil", custoso, desgastante e antinatural (distanásia), podendo caracterizar-se em dor e sofrimento equivalentes à tortura.
 
Nesse ponto, o médico consciente de suas responsabilidades, deve transmitir esse estado terminal à família. Adentra-se a partir daí os "cuidados paliativos", entendido enquanto os procedimentos técnicos necessários a garantir o conforto do paciente, os ajustes necessários aos negócios pendentes e as recomposições devidas para se colocar tudo em ordem, zerar as pegadas desta existência e libertar-se espiritualmente ao embarque a seguir.
 
São configurações que se assemelham à preparação de uma viagem e assim deve ser encarada como tal, uma viagem cujo reencontro é certo e possível, pois a esperança de que a imortalidade não deve estar nas máquinas dos hospitais, mas sim na jornada existencial a seguir.