Um caso raro de alteração de personalidade foi verificado no Brasil. Trata-se de um executivo, com idade de 49 anos, acometido de um AVC hemorrágico, que lesionou o subcortex esquerdo, no lóbulo frontal. Após sua recuperação, o executivo passou a ter uma necessidade impulsiva de doar dinheiro e alimentos a pessoas carentes de rua.
Diferentemente da maioria dos casos, nessa situação o paciente do AVC não sofreu uma perda cognitiva em decorrência da cianose (baixa oxigenação) e tem consciência do seu comportamento generoso.
"Quando questionado pelos pesquisadores se gostaria de voltar ao trabalho, ele afirmou que já tinha trabalhado o suficiente e que era hora de 'aproveitar a vida que é muito curta'. O homem também disse aos médicos que estava ciente das mudanças em seu comportamento e alegou que "viu a morte de perto" e queria ser uma pessoa melhor desde então" (UOL, 2013).
Essa ocorrência permitirá aos pesquisadores estudar o local exato de impulsos subcorticais ligados ao altruísmo humano, na área do lóbulo frontal, responsável pela consciência e pelas tomadas de decisão.
A pergunta que surge é a seguinte: seria o processo da generosidade realmente subcortical?
Pela resposta dada pelo executivo generoso, a percepção da proximidade da morte, da finitude da vida, teve grande impacto sobre seu comportamento. Logo, por mais que possa haver uma área do cérebro apta ao centro da generosidade e do altruísmo, a modificação dos comportamentos humanos em face da morte iminente ainda são a maior fonte de mudanças de condutas existentes.
São inúmeros os casos de pessoas que, em virtude de acontecimentos envolvendo o risco de morte ou a perda de familiares queridos, modificam todo o seu processo de vida, sua missão existencial e passam a realizar, em vida, novas opções do viver.
O excesso retratado no caso estudado, pode sim ser considerado uma patologia, quando os atos de generosidade transcendam ao esperado. Isto é, cheguem ao ponto de subtrair da pessoa as condições de sua própria sobrevivência ou de sua família. Ai sim, pode-se falar em generosidade patologia, a qual poderia dar ensejo até a interdição jurídica do indivíduo, com a consequente proibição de contratar doações, comprovada a sua ausência de consciência dos atos de dilapidação patrimonial (prodigalidade).
Por outro lado, ao se pensar no Direito das Sucessões, é lícito ao indivíduo não deixar nada em herança, utilizando de todos os seus recursos patrimoniais em vida para o seu bel prazer, com lucidez. Também é lícito deixar 50% da herança à assistência ou caridade, por meio de testamento, sem que a família possa se opor a isso. Tais atos envolvem possibilidades de generosidade, que podem aflorar na presença do arquétipo do sobrevivente, entre pacientes terminais.
Fontes:
http://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2013/09/10/vitima-de-avc-desenvolve-generosidade-patologica.htm
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23962063