A doçura de não fazer nada, eis a tradução da expressão italiana "Dolce Fare Niente". Para quem olha a Itália, enquanto oitava economia do mundo, ou oitavo maior PIB do mundo (dados de 2012), não pode acreditar que um dos lemas do bem-viver de um pais, tido por desenvolvido, não seja o trabalho, em primeiro lugar.
| Veneza - Foto: S.R.Martinez |
Mas
é isso, a doçura de não fazer significa que, respeitados os horários habituais
de trabalho, todo o restante do tempo da vida, será destinado a
outras coisas inerentes ao desenvolvimento pleno da vida, sem qualquer relação
com o trabalho. Parece uma conclusão óbvia, mas não é assim para grande parte
das pessoas, cujas vidas giram em torno de suas funções, compromissos, contas e
responsabilidades assumidas. Viver, ter significado na vida, para muitos, é
somente trabalhar.
Para
outros, o problema está no outro extremo, não trabalhar, nem estudar e nada
fazer, pois o trabalho é o caminho da edificação da vida. O meio termo é o
caminho.
Assim
pensa um professor italiano, que veio para palestrar no Brasil tempos
atrás. Como a palestra dele foi pela manhã e havia um jantar combinado com
todos os professores daquele curso de Direito, naquela noite, foi pedido a ele
aguardar até as 22 h para o jantar. Ele me perguntou: como assim? Aulas pela
noite? Se você já trabalhou durante todo o dia, ainda vai trabalhar pela noite?
Os
professores ficaram intrigados com a resposta do professor Italiano. Ele explicou
a seguir que, para os italianos, a noite e os finais de semana são momentos
sagrados, os quais se passa com a família, não se admitindo estender a jornada
laboral a tanto. "Trabalho é trabalho, fora do tempo do trabalho vamos bem
viver".
Isso
é muito importante para se refletir sobre uma Bioética da Sustentabilidade e do
Bem viver. O Bem viver pressupõe que se saiba estabelecer limites às
coisas, pois o tempo de atuação do homem também será limitada por sua
existência, por bem ou por mal. Logo, não há como se viver sem limites, pois a
própria natureza ensina isso.
Quem
precisa de bens de alto custo, carrões, joias, eletrônicos, roupas de grife e
toda forma de consumo supérfluo, não tem tempo para a vida, para outras coisas,
a não ser trabalhar para manter seu "padrão de consumo", ou seja, viver
para ganhar, consumir e ostentar.
A
sabedoria do bem viver italiano talvez seja parte desse processo de
desapego existencial, uma vez que os italianos tem o qualidade de vida e o
tempo livre como um "padrão de consumo" acima dos bens e produtos.
Assim,
a exemplo dos italianos, clarear o desejo sobre aquilo que realmente se precisa
para viver bem e, com isso, ter a liberdade de também trabalhar menos e poder
se dedicar a outras atividades de edificação humana, é um caminho de sustentabilidade.
Abre-se espaço para o aprimoramento pessoal, as artes, a cultura, a educação, o
lazer, as viagens, os esportes com vistas à saúde, a convivência com a família,
os amores, os amigos.
O
que se observa, entre pacientes terminais, muitas vezes, são os
arrependimentos com a perda do tempo de vida com coisas que não foram
edificantes no passado. Talvez os italianos e seu "Dolce Fare Niente"
sejam os responsáveis pelas altas taxas de longevidade na Itália que, aliadas à
qualidade de vida daquele país, estão ai para demonstrar que não só de
trabalho e consumo vive o ser humano, mesmo possuindo o 8.º PIB do mundo!
Em tempo: pesquisa realizada pela revista Exame (http://exame.abril.com.br/carreira/noticias/os-profissionais-que-mais-descuidam-da-saude#12), demonstrou que em vários ramos profissionais os brasileiros se encontram acima do peso, sedentários e com problemas de estresse. Será esse o país da sadia qualidade de vida que queremos?