O termo "pulsão de morte" foi cunhado por Freud e relaciona-se ao polo oposto à "pulsão de vida". O significado da pulsão de morte diz respeito a tudo o que tenha o condão de desviar, prejudicar, atenuar, obstar ou reter o desenvolvimento natural da vida (pulsão de vida). Nesse sentido, haveria pulsão de morte na ocorrência de conflitos, nas compulsões ou em todas as atividades que levem ao deterioramento da vida, em qualquer dos planos existenciais humanos.
A morte, em si, enquanto fenômeno natural, não reflete uma pulsão ocorrida. Mas o aceleramento voluntário da morte estaria indicando a existência da pulsão de morte na manifestação psicossomática do indivíduo.
Isso pode decorrer de processos inconscientes, baseados em fantasias patológicas construídas no desenvolvimento do indivíduo. As pulsões de morte refletem um autoengano, pela formatação incorreta do afeto e do uso das energias da vida (libido).
Há pulsões de morte na autosabotagem afetiva e profissional, assim como há pulsões de morte contra o próprio corpo, na profusão de doenças cuja origem é psicossomática, no uso de drogas, no sexo inseguro, nos prazer pelas atividades de risco ou ilegalidade.
A pergunta é, porque o indivíduo quer morrer? A resposta, por qualquer pessoa em equilíbrio mental, seria pela negativa, que preza a vida e que aproveitar ao máximo a sua ocorrência.
Não obstante isso, vários indicadores podem demonstrar que, embora conscientemente a pessoa queria ser feliz, realizada e satisfeita, no seu inconsciente existe alguma fantasia voltada a sua própria destruição.
Paradoxalmente, a coisa se inverte em face do paciente terminal que, em razão do curso natural da doença, cujo desfecho se aproxima, não conta mais com a noção de infinitude da vida. Passa agora, a contar com a certeza da finitude e, com isso, terá de se confrontar com a partida iminente.
Nesses casos, a pulsão de morte será vivenciada nas primeiras fases do paciente terminal, especialmente na fase da negação, na fase da raiva e da depressão, quando o paciente nega o processo em curso e externaliza sua agressividade pela ocorrência ou desiste de tudo. Demandará aqui, nessas fases, tempo precioso de sua finitude em curso.
Já a pulsão de vida reaparece nas fases da barganha e na fase da aceitação, quando o paciente começa a se adaptar ao processo, tentando estabelecer uma negociação com a vida e valorizando cada oportunidade obtida, até o avanço à última fase do processo, a qual nem todos adentram.
A pulsão de vida na fase da aceitação requer a superação de demais fases. Aqui o paciente adquiri uma visão de conjunto sobre seu fenômeno existencial e passa a entender a importância de finalizar seus processos atuais.
Surge o desapego, a consciência da missão cumprida, a percepção da espiritualidade e, com isso, dentro de um equilíbrio mental saudável, haverá espaço para as determinações de última vontade (testamento vital, testamento patrimonial, antecipação de herança), assim como para as recomposições e as despedidas.
O tempo nessa última fase, já não é mais tão importante quanto aos atos em curso, pois o processo de partida já se iniciou e terá seu andamento. Assim, revelará a pulsão de vida a capacidade do paciente enfrentar conscientemente sua condição humana nesse momento. Pulsão de vida porque reassume o controle de sua vida, a partir do controle das condições de sua partida.
Nesse sentido, orientar o paciente à consciência sobre a existência das pulsões e sua necessidade de enfrentamento é o primeiro passo para que em algum momento se possa chegar à fase da aceitação da partida, com a consequente inicialização dos processos de passagem, essenciais para a melhor partida possível.