O paciente terminal passa por cinco fases do luto em vida, antes de partir. Inicia pela fase da "negação" do seu estado, depois pela "raiva" de estar adoentado, a seguir "barganha" por uma cura, pela "depressão" do avanço da enfermidade, e, finalmente, pela fase da aceitação. O caso real, relatado no jornal "New York Times", relata um caso de um paciente que chegou à fase da aceitação.
Corey Kilgannon
Em Nova York (EUA)
Em Nova York (EUA)
New York Times
Marcy Glanz vinha lutando contra o câncer de ovário desde o início de 2011, mas no final de novembro, ela recebeu uma má notícia de seus médicos: o câncer era tão grave que ela tinha apenas algumas semanas de vida.
"Muita gente morre muito cedo e não tem nenhuma chance de se despedir, ou tem uma partida longa e dolorosa", disse seu marido, Marion Stewart. "A dela não foi nada disso."
Para aliviar a dor da morte para si mesma e para seus entes queridos, Glanz fez um último pedido: ela queria essencialmente uma festa de despedida de um mês inteiro que misturasse frivolidade e amizade, risos e lágrimas.
Ela queria dizer adeus a seu modo para o marido e os dois filhos, bem como para quase todo mundo que conhecia. Ela queria ajudar a planejar seu próprio funeral e deixar algo sincero para seus netos que ainda não haviam nascido. Ela queria uma recapitulação pungente de seus 62 anos na Terra.
"Ela poderia ter simplesmente se encolhido" e esperado a morte de uma forma privada, disse Stewart. Em vez disso, ela escolheu enfrentar sua morte iminente de cabeça erguida, na companhia de muitos.
"Ela rapidamente fez as pazes com o fato de que morreria em poucas semanas e que usaria esse tempo para se despedir", disse ele, acrescentando que esta não foi uma tarefa simples para uma mulher que cultivou dezenas de amizades desde o jardim de infância, em Newton, Massachusetts.
Para esta festa, nenhum hospital ou centro de cuidados paliativos funcionaria. Ela pediu a uma equipe médica para instalá-la em seu apartamento na West 90th Street para que ela tivesse mobilidade, apesar dos "drenos pendurados" e outros tubos, disse Stewart.
Com os intestinos devastados pelo câncer, Glanz não conseguia processar nutrientes e foi lentamente "morrendo de fome", disse Stewart. Mas enquanto seu corpo definhava, sua mente ainda estava lúcida e ela podia falar, rir e chorar com todo mundo – e foi o que fez.
Primeiro ela e Stewart lembraram de seus anos juntos, depois de se conhecerem numa festa no Upper West Side, em julho de 1977, momentos após um blecaute.
"Eu sempre brincava dizendo que se ela tivesse me conhecido antes de as luzes se apagarem e desse uma boa olhada em mim, nada teria acontecido", diz ele. Naquela noite, eles conversaram à luz da lua e de velas e logo se apaixonaram. Casaram-se e, no final da década de 80, tiveram dois filhos, Jeremy e Josh.
Glanz tinha um mestrado em psicopedagogia pela Universidade de Harvard e trabalhou como pesquisadora associada em programas infantis de televisão como "Vila Sésamo". Depois de mudar para a publicidade, ela eventualmente abandonou a carreira para criar os filhos.
Stewart, 69, é economista e se aposentou há alguns anos para que ele e a mulher pudessem desfrutar de seus últimos anos de vida juntos – ele acreditava que seria o primeiro a morrer.
Mas a realidade era diferente. A família passou o começo de dezembro compartilhando memórias. Eles desenterraram dezenas de álbuns de foto, filmes caseiros em VHS e até um velho projetor de slides.
Sim, houve muito choro, " mas houve muito mais risos do que lágrimas", disse, acrescentando: "fizemos muitas das coisas que as pessoas fazem depois da morte, mas fizemos isso antes que ela morresse."
Glanz deixou com o marido um esboço escrito sobre como queria seu funeral, com detalhes como música e oradores. Pintora amadora, ela narrou uma apresentação de slides de suas obras para que seus filhos colocassem online para os outros.
"Não houve nada de 'Ai de mim' ou 'não aguento mais'", disse Stewart. "Havia simplesmente uma tranquilidade e o desejo de concluir tudo."
Seu maior arrependimento foi de não chegar a ter a experiência de se tornar avó. Então seus filhos a presentearam com cópias do livro infantil "Boa Noite Lua". Ela costumava ler para eles antes de dormir, e então gravou uma versão para que um dia, quando seus filhos forem pais, as crianças possam ser ninadas pela avó que nunca conheceram.
Então vieram os amigos de Glanz, alguns do outro lado da cidade, outros do outro lado do país. Muitos confidenciaram mais tarde a Stewart que o desejo mais urgente dela era que eles prometessem tomar conta dele.
Como a amiga de longa data Catherine Paura disse: "ela não conseguia nem comer mas disse que estava muito, muito feliz em poder ajudar sua família a lidar com a perda antes de partir."
No final de dezembro, ela estava em uma cadeira de rodas mas ainda recebia parentes que faziam sua manicure e pedicure e ainda orientava a família a fazer sua tradicional torta merengue de limão. Seu 62º aniversário, em 24 de dezembro, foi comemorado com três festas diferentes.
Com bastante assistência, ela participou do passeio tradicional da família para ver "O Quebra Nozes" no Lincoln Center, mas esta seria a última vez que ela deixaria o apartamento.
Na noite de Ano Novo, ela decidiu espontaneamente fazer uma "última festa de arrasar" e convidou 20 pessoas, disse Stewart.
Ela conversou longamente em sua cadeira de rodas, brindando com todos tomando refrigerante de gengibre. Ela se vestiu de forma ousada. Seu vestido rosa-choque e cachecol de plumas ajudavam a esconder seu corpo emagrecido.
O dia de Ano Novo foi o último em que ela conseguiu falar. Em 5 de janeiro, ela morreu em sua cama, com a família à sua volta.
No serviço memorial no templo da Congregação Rodeph Sholom na West 88th Street, Glanz foi homenageada por parentes e um grupo de amigos de infância, incluindo Dick Friedman, 62, editor e autor.
"Ela era a cola em nossas vidas que assegurava que todos permanecessem em contato", disse ele, acrescentando que ela morreu "exatamente da forma como viveu a vida".
Paura disse que no fim, "ela tinha a habilidade e os meios para dizer tudo o que queria dizer".
"Foi como se, ao enfrentar a própria morte pelo prisma do amor, ela a tivesse transcendido", disse Paura.
Tradução: Eloise De Vylder
Fonte: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2014/01/20/ultimo-desejo-antes-de-morrer-um-mes-de-festas-de-despedida.htm Acessado em 20/01/2014.