Partidas raras, partidas aparentemente inexplicáveis

Quem se lembra do grupo musical Mamonas Assassinas, que partiu após o último show de sua temporada, poderá também buscar outros exemplos, de partidas que ocorreram sem situações prementes. Assim também ocorreu com Tancredo Neves, antes de assumir a posse de presidente do Brasil. Esta semana presenciei a partida de um grande aluno de Manaus, de maneira súbita, acometido de uma moléstia rara e fulminante. Como entender esses processos, vivenciar o luto dessas perdas e dar um sentido espiritual à vida, nesses casos?

Joelson era um jovem cheio de vida, de projetos e objetivos. Um rapaz do bem e de bem, humilde, dedicado, inteligente e esforçado, estava trilhando seus caminhos na pós-graduação em Direito com sucesso.

De súbito, em uma semana, uma infecção rara aparece e esse jovem vai parar na UTI, tendo a vida mantida por aparelhos? Dias depois, perde a batalha e falece, num ato donde se põe a perder sonhos, possibilidades e uma vida de realizações pela frente. Como enfrentar existencialmente uma situação dessas?

A negação, enquanto primeira fase de qualquer luto, faz-nos tentar evitar admitir esse tipo de ocorrência. Não faz sentido na trama da vida tal tipo de partida. Por que isso iria ocorrer logo com alguém tão cheio de vida, futuro e projetos? Por que tão de repente e dessa forma rara?

A raiva também pode ter seu lugar nas mentes, ao se pensar na injustiça desses desígnios da vida, em relação a tantos outros que se destroem diariamente em vícios e maldades, mas que continuam vivos, enquanto aquele jovem, a trilhar o caminho do bem, partiu inesperadamente, sem nem poder dizer adeus.

A fase da tristeza acompanha tal processo e só cede na busca de um espaço da fase final da aceitação, passível de ser construído, com o reconhecimento da espiritualidade do caminho. Sem ela, o materialismo não gera saída ao sofrimento da perda. Com ela, pode-se construir um explicação e uma pacificação íntima que, mesmo sem nos fazer voltar no tempo e salvar a vida de nosso jovem, servirá a manter a esperança nos desígnios da existência humana.

Independente do processo religioso escolhido, a morte, desde as crenças antigas da humanidade, em regra, refletirá um processo de passagem, daí nosso conceito sobre a partida. Logo, ao se conceber a hipótese de que há um outro plano a se atingir com a morte, um significado espiritual para a vida também deverá surgir.

Enquanto seres biológicos, tudo o que é orgânico tende a seu fim, está programado para isso em seus cromossomos de DNA. Uma vez admitida essa possibilidade, há que se antever um caminho prévio estipulado a cada ser. Caminho esse, que poderá ser cultivado pelo melhor, por experiências de vida e aprendizagens a serem realizadas nesse período de tempo. É uma caminho que, por sua limitação temporal, deve ser bem aproveitado, em edificações existenciais, para que, quando se chega a hora de partir, a borboleta deixa o casulo para voar novamente em todo o seu esplendor de liberdade, como exemplifica Elisabeth Kluber Ross.

Os acasos também podem antecipar esse momento biológico estabelecido, pois como diz Ulrich Beck, vivemos numa "sociedade de risco" e, como tal, o risco sempre cerca quem está vivo. Logo, isso também é um delimitador das existências, previamente computado ao nascer no mundo atual. Uma doença rara também pode estatisticamente fazer parte desses casos.

Assim, aproveitar o tempo em terra, talvez seja a grande dádiva a ser valorizada dia a dia, pois a ausência do controle a esses processos está acima das vontades humanas. No caso de Joelson, sabemos de sua alegria com que aproveitou o tempo em terra, da força de viver, de aprender e de compartilhar, com todos a quem amava, momentos de paz e felicidade. 

Sem saber ou qualificar os caminhos espirituais de cada um, para todos que possuem essa convicção existencial da passagem, importa desejar a Joelson vitórias contínuas na sua empreitada evolutiva a seguir, sabendo aproveitar de seu exemplo em vida para novos rumos existenciais. Sucesso aonde estiver, caro aluno.