A Dor da Perda e o Processo de Luto

O Luto somente se inicia com a dor da perda. Essa dor não necessariamente precisa ser física, pelo mal-estar do ocorrido. Pode se dar somente com a negação de sua ocorrência, muitas vezes com a recorrente lembranças da imagem daquele que partiu.


Trata-se de um movimento inicial de reconfiguração da vida. Significa que a psiquê está em processo de reorganização mental, com vistas a permitir o contínuo da existência, sem o ente querido.

Sem esse sintoma de reorganização mental, o luto não se inicia no inconsciente humano e a pessoa fica retida até que se permita viver o processo. Isso ocorre muitas vezes quando há surtos em razão da partida, ficando a pessoa fora de si, em colapso nervoso, adentrando a processos psicóticos de fuga da realidade.

Por vezes, o luto requer um afastamento da realidade e das coisas que a ligam a aquele que partiu. Nesses casos, trata-se de outro mecanismo de defesa normal, a ser vivido. Não se confunda afastamento com esquecimento daquele que partiu. Uma coisa é se afastar da realidade a outra é esquecer-se, coisa que não ocorre. Nada pode substituir aquele que partiu, seu lugar está definitivamente guardado no afeto de quem ficou. 

O que o processo de luto irá fazer é equalizar esse local, permitindo que o tempo faça seu processo de abrir novos espaços à vida, ao contínuo da existência de quem ficou.

Por isso que a Psicanálise não atua por consolação, mas sim, em permitir que o uso da palavra vá aos poucos abrindo novos espaços de vivência, por meio da reestruturação dos pensamentos e sentimentos.

Em face de pacientes terminais, o luto e a dor da perda do indivíduo, que se esvai, requer aspectos transpessoais a serem trabalhados, pois o espaço da matéria vai cedendo lugar à metafísica da existência, num transcurso sem volta a ser preparado mentalmente.

Configurar essa dor da vida em libertação da partida, significa reconfiguração o princípio do prazer, agora afeito à metafísica do existir. Uma reação ao processo em curso, contra o qual fisicamente nada se pode fazer, a não ser reconfigurar o que estará por vir.