Na obra "Além do Princípio do Prazer", Freud trata dos dois principais motores da vida, o Amor, a base da pulsão de vida, estudado desde o início da Psicanálise, e a Morte, a pulsão destrutiva, estudada pelo mestre ao final de sua vida, a partir de insights advindos das teorias desenvolvidas por Sabina Spielrein. Em ambos, a questão da Liberdade e da Responsabilidade estão presentes.
Especialmente em relação à Partida, cada qual tem a liberdade de direcionar a sua vida ao que melhor lhe provier, em termos de experiências, conexões e opções, contanto que entenda serem tais escolhas o caminho a uma gradual despedida, no avançar do tempo. Daí a responsabilidade inerente a cada escolha.
Como já previam os antigos chineses, em sua filosofia milenar e ancestral, cada vida e cada corpo vem com uma capacidade, um carga potencial e imanente de realizações, limites mínimos e máximos a serem utilizados, a partir da sabedoria e da experiência de cada um no transcurso do tempo, até o final de sua jornada.
Escolher gastar mais ou menos desta carga, fazer sua economia ou a aceleração dos gastos dessa energia vital é uma questão de liberdade. Porém, uma vez feitas as escolhas e vivenciadas as experiências, resta a cada qual assumir a responsabilidade pelos seus atos e arcar com as consequências, vantagens e desvantagens de suas opções existenciais.
Com o tempo e o gasto previsível da carga imanente e potencial de vida, será normal sentir o peso da responsabilidade pelas escolhas realizadas, sem que isso signifique um padecimento ou imputação de culpa pelo que foi vivido. Pelo contrário, significa que cada qual deve assumir e ser senhor de sua realidade, de sua história e, com isso, sempre focar no melhor, no colheita de melhores opções sobre o que ainda lhe resta viver da carga vital.
Desse modo, foca-se na liberdade das opções do que ainda resta de porvir em cada vida, perante a qual a responsabilidade deve ser maior do que em face daquilo que já passou e não volta mais. Ou seja, se ainda há opções livres, agora elas podem ser escolhidas com mais propriedade, com vistas a corrigir os erros do passado e galgar responsavelmente o futuro a caminho.
Partir, nesta condição, ou quando perceba sua eventual proximidade, permite ao paciente terminal, tomar novamente as rédeas do curso de sua vida, uma vez perdidas pela condição destrutiva vivenciada, que não tem o condão de anular seu poder de decidir e orientar o desfecho do que ainda lhe resta a seguir.
Esse é o espaço primordial da liberdade e da responsabilidade, a ser exercido não somente na gestão sucessória prévia, a fim de controlar as ocorrências futuras pós-partida (pacificação e proteção familiar), mas também, para qualquer pessoa consciente de focar o tempo de vida futuro no melhor disponível a si, aos próximos e para os mais abnegados, ao seu contributo à humanidade.
