por Dora Mota.
Acha que tem coisas a mais? Que não precisa de tanto para viver? Para ser feliz? Um
movimento que está a espalhar-se pelo mundo desafia as pessoas a livrar-se de
tudo o que têm a mais para usufruírem mais da vida. Pode ser uma viagem dolorosa
ao interior de si mesmo, mas garante quem já experimentou que traz um enorme
alívio e sensação de liberdade. O minimalismo ou simplicidade voluntária já
convenceu várias portuguesas... felizes por terem esvaziado a casa, a agenda e,
sobretudo, a cabeça.
Há quase vinte anos, um pequeno livro, escrito por uma ex-agente imobiliária
norte-americana, deixou milhares de leitores a olhar de outra maneira para a
tralha que acumulavam nas suas casas e para as suas vidas aceleradas. A autora
chama-se Elaine St. James e o livro tem um título que diz tudo: Simplify Your
Live: 100 Ways to Slow down and Enjoy the Things that Really Matter
(qualquer coisa como «Simplifique a sua vida: 100 maneiras de abrandar e
aproveitar as coisas verdadeiramente importantes»). Foi também o que aconteceu
com Rita Domingues. Há dois anos que simplificar e dedicar-se àquilo que
realmente importa se tornou o lema da investigadora na Universidade do Algarve.
Podíamos dizer que esta mãe de dois rapazes tem o livrinho de Elaine St. James
na cabeceira, mas... Rita não tem mesas-de-cabeceira. Percebeu que não precisava
delas, nem de uma série de outros móveis, que foi doando ou vendendo, enquanto
se despojava também de roupas, calçado, louças, livros e revistas.
A bióloga marinha de 32 anos, natural de Lisboa e a viver em Faro, tem sido
uma grande divulgadora da simplicidade voluntária e tornou-se, ela própria,
minimalista. O minimalismo ficou conhecido como uma corrente artística do século
XXque procurava os elementos de expressão essenciais, com maior visibilidade nas
artes plásticas, mas que influenciou também a literatura e a música. Ficou
célebre a expressão «menos é mais», do arquiteto alemão Mies van der Rohe. No
minimalismo aplicado ao estilo de vida, o princípio é o mesmo: identificar o que
é essencial para cada um e procurar viver de acordo com esses valores,
eliminando tudo o resto.
Rita Domingues chama a essas sobras «tralha física ou mental». No seu blogue,
The Busy Woman and the Stripy Cat (busywomanstripycat.blogspot.pt), vai contando
o seu percurso e desafiando outros a refletir nas suas vidas sobrecarregadas.
Além das suas histórias de desapego, quase todos os dias Rita partilha técnicas
de organização pessoal e até métodos para resolver problemas que podem ser tão
agudos para as mulheres. Como o excesso de roupa, por exemplo. Os leitores
puderam acompanhar, ao longo de meses, como se treinou para acordar mais cedo e
fazer exercício, meditar ou escrever antes de ir trabalhar. Criou até, no
Facebook, o grupo «Bom dia, manhãs», mobilizando quase seiscentas pessoas que se
incentivam mutuamente a madrugar para serem mais produtivas.
Rita decidiu tornar-se minimalista em 2011, durante uma viagem de trabalho a
uma ilha grega, em que à noite, no hotel, leu o eBook The Power of Less.
O autor, Leo Babauta, é um guru atual do minimalismo, uma década depois do êxito
das cem dicas da Elaine St. James. «Os minimalistas pareciam pessoas muito
felizes, livres de stress e sem a preocupação de ter mais e melhor do que o
vizinho do lado, que é um fenómeno tão enraizado na nossa cultura. E eu queria
isso para mim.»
De volta a Faro, aplicou-se mais. «Já me tinha livrado da tralha física à
minha volta, mas faltava ainda a tralha mental, os compromissos, as
responsabilidades. Comecei a dizer não a muitas coisas, quer no trabalho quer na
vida social. Comecei a fazer aquilo que eu queria, e não aquilo que as outras
pessoas queriam ou esperavam que eu fizesse, mesmo eu não querendo. Estabeleci
prioridades e comecei a viver a minha vida em função dessas prioridades. E nunca
fui tão feliz como sou desde que tomei essa decisão.»
Nestes dois anos, tem alcançado metas de grande significado pessoal, algumas
bastante prosaicas, como conseguir limpar o seu T3 apenas numa hora. Rita, que
assume que foi consumista e acumuladora (e muito mais ocupada do que é hoje),
livrou-se de mais de metade da roupa, de móveis, utensílios de cozinha e livros.
E começou a recusar atividades, tanto no trabalho como na vida pessoal, que não
estavam relacionadas com os seus objetivos. Conquistou tempo para se tornar
praticante diária de ioga. E algo que para muitas pessoas será especialmente
importante na economia crítica em que vivemos: começou a poupar cerca de metade
do que ganha. Essa era uma das suas metas pessoais e, ao fim de um ano, está a
conseguir cumpri-la. Ao fim de todos estes meses, Rita tem uma tranquila
certeza: «Não sinto falta de nada!» Recentemente, começou a partilhar no blogue
histórias que os seus leitores lhe enviam, narrando as suas experiências de
minimalismo. E disponibiliza gratuitamente dois eBooks que escreveu para ajudar
quem quer começar: Guia Rápido para Simplificar a Vida e 100 Dicas
Fáceis para Organizar e Simplificar a Vida.
É precisamente através da blogosfera que o minimalismo mais se tem expandido,
com o Zen Habits, de Leo Babauta, a ser considerado pela revista Time como um
dos blogues mais influentes do mundo. Em 2008, o ex-jornalista, atualmente
escritor e fundador de uma bem-sucedida editora de eBooks, publicou The Power of
Less, um guia prático de autoajuda para aspirantes a minimalistas. O tal livro
que Rita Domingues leu na Grécia está traduzido e editado em português (O Poder
do Menos: A Ilustre Arte de se Limitar ao Essencial... nos Negócios e na Vida,
Plátano Editora), assim como o Simplifique a Sua Vida, de Elaine St. James (ed.
Sinais de Fogo).
O poder do menos diz tudo, sublinha Rita. «O minimalismo é identificar o
essencial e eliminar o resto, é uma ferramenta para nos livrarmos do excesso e
focarmo-nos no que é importante. É ter o suficiente, nem coisas a mais nem
coisas a menos. E isto aplica-se a tudo à nossa volta, não só aos objetos, mas
também aos compromissos, relacionamentos, trabalho e ao nosso estilo de vida.» A
ideia é ir mudando aos poucos, dando um passo de cada vez, até criar hábitos.
Resistir à comparação social e aos apelos do consumismo ou até, como fazem
muitos minimalistas, deixar algumas redes sociais.
Na internet, encontramos histórias de minimalistas para todos os gostos,
desde os gordos que conseguiram tornar-se corredores de maratonas, os
sobre-endividados que conseguiram tornar-se consultores de finanças pessoais e
até os radicais que largaram vidas de luxo e salários milionários para ir viver
com quase nada nas montanhas. Leo Babauta sugere que se olhe primeiro para a
vida de cada um, fazendo um exercício consistente de autoanálise e registando
num papel quais os objetivos a curto, médio e longo prazo. Em seguida, agir de
forma consequente e realizar todos os dias uma pequena ação para os alcançar.
Por exemplo, quem quer destralhar a cozinha, deve começar por arrumar aquela
gaveta atafulhada de coisas inúteis. E por aí adiante, até chegar às grandes
mudanças.
O autor de O Poder do Menos e de vários outros livros, alguns disponíveis
para download gratuito no seu blogue, afirma sem hesitar que foi salvo
pelo minimalismo, quando, há oito anos, era um fumador obeso, a trabalhar
demasiado para pagar dívidas, sem tempo para ir às festas da escola dos filhos.
O que mais queria era passar tempo com eles - tem seis crianças -, correr, ler e
escrever. Desde 2005, deixou de fumar, perdeu 25 quilos, correu várias maratonas
e provas de triatlo, triplicou o rendimento, tornou-se escritor e declara-se um
homem muito feliz. É um minimalista convicto: na sua mesa de trabalho, tem
apenas o computador, um bloco e uma caneta. Há vários minimalistas ainda mais
extremos mas - descanse - também há vários minimalistas com smartphones e vários
pares de sapatos. Rita Domingues, por exemplo, tem vinte pares de sapatos. Mas
já teve sessenta, antes de atacar o guarda-roupa, cujo excesso a incomodava, e
de se livrar também de mais de metade da roupa.
Foi a questão da roupa que fez o clique a Sandra de Sá, 36 anos, professora
do primeiro ciclo numa escola do Porto. Em duas viagens que a marcaram
profundamente, a Marrocos e a Cuba, deu grande parte da roupa que levava na
mala. Sandra lembrava-se muitas vezes da menina cubana que percorreu 12
quilómetros a pé, seguindo o autocarro onde ela ia, para poder receber também
alguma roupa. «Abrimos o guarda-vestidos e achamos que não temos roupa para
vestir. Estamos tão bloqueados pela abundância que nem pensamos.» Foi a
maternidade que a lançou definitivamente na busca de uma vida simples. «Eu
sentia que precisava de ter mais espaço livre e menos tralha, que havia outras
coisas mais importantes, mas não lhe dava ainda o nome de minimalismo. Havia uma
necessidade interior dentro de mim e isso evidenciou-se quando o meu filho
nasceu.»
Sandra vive num apartamento em Matosinhos que precisou de esvaziar para criar
espaço para o bebé. Livrou-se de muitos objetos e, em alguns casos, foram
decisões dolorosas. «Houve coisas de que não me consegui separar, como livros ou
tecidos antigos, coisas com uma carga afetiva muito grande.» Mas o filho de dois
anos mostra-lhe todos os dias como é fácil viver com menos. «Ele é capaz de
brincar mais com uma caixa de cartão vazia do que com vinte carrinhos.» Agora,
controla as despesas com mão de ferro e gasta muito menos no supermercado.
Tornou-se uma consumidora mais responsável. Assumiu que havia de passar mais
tempo em família e menos tempo a ver televisão e no computador, costurar mais,
comer melhor.
É um caminho sem regresso, acredita Sandra, perante tantas boas mudanças na
sua vida. Passa muito mais tempo dedicada à sua paixão, o artesanato. Costura
muito, transforma roupa, fez saquinhos de pano para todos os alunos levarem o
lanche. Criou uma mini-horta na varanda, faz iogurtes e biscoitos em casa. A
quem quer começar, além de alimentar um blogue onde escreve algumas dicas
(iwilldoitoneday.blogspot.pt) dá um conselho: «Temos de pensar no que é que nos
faz felizes. Primeiro, temos de destralhar a nossa mente, muitas vezes estamos
cheios de lixo na nossa cabeça. E só depois passar para a nossa casa.»
Nos muitos blogues dedicados ao minimalismo, quase todos nascidos em
vigorosas sociedades de consumo, como os Estados Unidos ou a Europa - e também
imensos no Brasil - todas as pessoas parecem querer o mesmo: emergem desejos tão
simples e universais como ter mais tempo para a família, dedicar-se a uma arte,
fazer desporto, cozinhar, ler e escrever, viver mais a natureza, fazer
voluntariado, tornar-se mais produtivo no trabalho ou nos estudos, perder peso
ou deixar de fumar, viajar ou passear mais. Se todos sabemos tão bem o que
queremos, por que razão passamos tanto tempo desorientados no meio de tralha e
de compromissos, trabalhando tanto para comprar coisas de que não precisamos?
Mafalda Sousa, 32 anos, diretora de uma instituição de solidariedade social em
Abrantes, estava grávida da filha, agora com 4 anos, quando foi fulminada por
esta pergunta. Trabalhava 14 horas por dia, pouco via a família e sentiu que os
seus sonhos murchavam.
«Recordo-me daquela noite como se fosse hoje. Tomei consciência de que andava
sempre cansada, cheia de stress e pessimista. Estava a tornar-me workaholic,
sentia-me sufocada no meu próprio lar. Não era esse o legado que queria deixar à
minha filha. Pedi a Deus que me ajudasse a mudar o rumo, queria aprender a viver
uma vida mais plena e feliz.» Mafalda dedicou-se ao assunto quase
academicamente, fez uma pesquisa sobre felicidade e leu livros sobre psicologia
positiva. Começou por atacar os excessos de casa e por organizar a rotina
doméstica, de forma a eliminar tarefas desnecessárias. Definiu lugares para cada
coisa. Pôs as finanças em ordem. «Desfiz-me de roupa que já não usava, de
pechinchas que só me fizeram perder dinheiro, de presentes que só mantinha por
sentimento de culpa e daqueles objetos que eu pensava que um dia seriam úteis e
nunca chegaram a ser.» À medida que se livrava de coisas, ia-se sentindo mais
livre. E criou o blogue A Felicidade é o Caminho
(manualdafelicidade.blogspot.com), onde fala da sua experiência.
«Ganhei tanto. Sinto-me mais calma, menos stressada e, curiosamente, mais
produtiva. Poupei bem mais dinheiro do que nos últimos anos e doei a quem mais
necessita. O melhor de tudo é que ganhei tempo para a família e para os meus
hobbies. Posso afirmar que me tornei mais feliz.»
Sara Duarte, estudante de Bioquímica de Lisboa, teve a sua epifania quando,
há dois anos, foi acampar na costa alentejana e algarvia. «Tinha comprado uma
tenda pequenina e por isso a minha bagagem foi reduzida a uma mochila pequena e
pouco mais.» Levou a máquina fotográfica, o telemóvel, alguns livros, um bloco e
uma caneta. Deu por si a acordar sempre cedo e cheia de energia. «Numa dessas
manhãs, abri a tenda e fiquei apenas a olhar para a natureza em redor, enquanto
ouvia os pássaros a chilrear e apercebi-me que precisava de pouco para ser
feliz. Pensei que se era feliz assim, não fazia sentido acumular tanta coisa no
dia a dia e que quando regressasse a casa tinha de me livrar de muita coisa.»
Assim fez, começando a orientar-se no seu quarto dantes sempre desarrumado.
«A energia e o tempo que antes eram consumidos à procura da agulha no palheiro
agora são utilizados em coisas mais importantes como terminar a licenciatura,
montar a minha futura casa e noutros projetos pessoais.»
Até a mãe, que nunca entrava no quarto caótico da filha de 28 anos, começou a
sentar-se lá para conversar. Sara, que vai contando a sua aventura no blogue My
Cinnamon Heart (mycinnamonheart.blogspot.com), admite ter sido uma acumuladora
de inutilidades: guardava objetos partidos ou avariados, roupas de ioga e karaté
que já não serviam, bilhetes de cinema e teatro, coleções de revistas. «Até a
caixa de mensagens do telemóvel e do e-mail estavam cheias. Tudo foi doado,
reciclado ou eliminado e até hoje nada me fez falta, Pelo contrário, é um alívio
ter-me visto livre de todas essas coisas.»
Rita contou com o apoio do marido (que, segundo ela, sempre foi minimalista
espontâneo), Mafalda e Sandra também contaram com a família, Sara reconhece que
pedir ajuda foi fundamental no seu caso. «A tralha que foi acumulada em meses ou
anos não vai desaparecer numa semana e com ajuda será mais fácil chegar a bom
porto. Pedi ajuda ao meu namorado, que foi olhando para as coisas com sentido
mais crítico quando eu tinha dificuldades em me desapegar emocionalmente.» Rita
Domingues aconselha os aspirantes a minimalistas a não serem demasiado severos
consigo mesmos. «Ser minimalista não é viver uma vida ascética nem uma pobreza
voluntária», embora a frugalidade acabe por acontecer naturalmente. «Não existe
uma escala, o que é essencial ou supérfluo é diferente para cada pessoa.»
Há quem dê a si mesmo um prazo ou crie projetos que partilha com uma
comunidade para se manter firme. É o caso de Dave Bruno, que decidiu, durante um
ano, reduzir todos os seus bens pessoais a cem coisas. A história, contada com
sentido de humor e uma honestidade tocante, deu origem a um livro, O Desafio
das 100 Coisas (ed. Bertrand, 2012), e, claro, também a um blogue
(guynameddave.com) onde este norte-americano de 42 anos continua a contar como
nunca mais teve mais de uma centena de objetos pessoais. Há ainda o Project 333,
criado pela blogger Courtney Carver, que desafia as pessoas a experimentar viver
com um máximo de 33 peças de roupa durante três meses, para descobrir quanto
possuem de artigos desnecessários. Ela vive com 33 peças há mais de dois anos.
Em todo o caso, não há como escapar a algum sofrimento íntimo, mas também há
muito amparo: todos os que aderiram à simplicidade voluntária são generosos
contadores das suas histórias. Além do popular Leo Babauta, quem quer saber mais
sobre o assunto pode ainda contar com o americano Joshua Becker, que há cinco
anos decidiu que não queria perder mais feriados a arrumar a tralha da garagem e
acabou por se tornar mais um minimalista de fama mundial, com dois eBooks
publicados sobre o assunto e um blogue - Becoming Minimalist -, onde diariamente
publica mensagens de motivação. Rachel Jonat, uma canadiana que vive na ilha de
Mann, na Escócia, conta a aventura da sua família em direção ao minimalismo e
acabou por criar o muito popular blogue The Minimalist Mom. E, claro, a
portuguesa Rita Domingues, que aconselha paciência e determinação, já que o
caminho para a simplicidade pode demorar meses. Ou, com sorte, apenas algumas
boas semanas. E começa com um pequeno passo, como arrumar a gaveta da tralha que
tanto nos incomoda.
Blogues minimalistas obrigatórios
zenhabits.net - Leo Babauta
busywomanstripycat.blogspot.pt - Rita Domingues
www.becomingminimalist.com - Joshua Becker
bemorewithless.com; theproject333.com - Courtney Carver
www.theminimalistmom.com/blog - Rachel Jonat
guynameddave.com - Dave Bruno
manualdafelicidade.blogspot.com - Mafalda Sousa
mycinnamonheart.blogspot.com - Sara Duarte
iwilldoitoneday.blogspot.pt - Sandra de Sá
Fonte: http://www.dn.pt/revistas/nm/interior.aspx?content_id=3275609, acessado em 17/07/2013