Latinos culturalmente tem uma dificuldade em lidar com a temática da morte. Evitam falar sobre o assunto, mesmo quando o prognóstico terminal é declarado pelo médico e deixam, com isso, conflitos represados para depois, por falta de habilidades emocionais em lidar com a questão no tempo certo.
Por trás de tudo isso há uma cultura da imortalidade embasada em crenças e religiões, que contribui para atenuar o sofrimento no final da vida, mas nada contribui para um contexto libertário, o direito de partir livre da consciência.
Trata-se de um mito a ser vencido. Assumir a finitude da vida não é antecipar o seu curso ou mesmo, a crença irracional de atrair o pior para si.
Viver é morrer a cada dia, biologicamente, sem que isso, no conjunto da história humana, possa efetivamente ser evitado por qualquer crença ou religião. Não existe imortalidade, nem há cientificamente maneiras comprovadas de produzi-la.
Há sim, crenças individuais especialmente suscitadas no processo de luto terminal, quando então, o paciente chega à fase da barganha (para ler mais, veja fases da partida) e passa a lutar por sua sobrevivência negociando curas e moratórias com o divino.
Tais crenças acabam por retardar a necessária tomada de controle do processo de partida, quando a consciência assume e controla atitudes lúcidas e produtivas para deixar suas coisas em ordem e organizar tudo com vistas ao desapego da partida que virá (gestão sucessória).
Muitas vezes, quando essa fase de lucidez no luto terminal é atingida, nada mais há a se fazer, já será tarde demais para qualquer ajuste e controle do processo da partida, pelo avanço inexorável do fim das condições fisiológicas previstas.
Mudar isso é essencial, especialmente quando se busca um processo espiritual mais racionalizado, quando o divino não está no processo em encerramento, mas no que virá, na jornada a seguir. E para tanto, deixar as coisas em ordem e ter maturidade para partir é essencial a esse processo.