Perdas coletivas não são fáceis, pois elas não envolvem somente as relações e sentimentos individuais de quem perde o ente querido. Elas envolvem algo além, as chamadas perdas difusas, sentimentos que muitas vezes vão além das relações pessoais, ao atingirem valores de grupos, relativos à localidade e ao pertencimento daqueles que partiram, e toda uma população a eles simbolicamente ligada.
Participar de perdas coletivas é algo impactante. Você acaba sem querer no luto coletivo vivenciado por toda população. Pode até não conhecer pessoalmente as pessoas que partiram, mas irá compartilhar, de alguma forma, sintomas individuais de luto vivenciados perante a comunidade.
Teoricamente não haveria motivos para se viver aquele luto decorrente da perda coletiva, uma vez que aqueles que partiram fossem desconhecidos, porém, trata-se de um contágio por identidade e territorialidade ao grupo social. São ligações de afinidade, empatia e laços comunitários estabelecidos entre todos.
Logo, não há como evitar sentir a perda, a sensação de vazio e a necessidade de interagir, falar sobre o ocorrido, as percepções, as emoções e a forma como cada um está a lidar com todo aquele sentimento de tristeza criado.
Alguns poderão se calar e não terão interesse em acompanhar. Não se trata de insensibilidade ao evento, mas sim, a chamada negação, a qual deve ser entendida como mecanismo de enfrentamento do ocorrido, dentro das possibilidades de cada um. Por vezes, uma forma silenciosa de elaborar a perda e a sensação de tristeza, até que se possa avançar no luto.
Para outros, será a hora de uma catarse da perda, o pranto, a busca de consolo, o contato com alguém ou algo que lembre as pessoas que partiram. Vestir roupas, ouvir músicas, ir a um local específico, participar de vigílias e outras formas de manter-se conectado de alguma forma. Preencher o vazio sentido pela ação e assim dar uma elaboração significativa ao que se está passando.
Grande parte irá focar na linguagem, na busca de notícias, no debate sobre os motivos do infortúnio que levou àquela perda coletiva. Talvez essa seja a maior terapia a ser aplicada ao momento, permitir-se falar. Conversar e abrir-se ao sentimento vivido. Dizer sobre suas percepções, emoções, a sensação de falta. Isso traz alívio pela sensação de cooperação e de compartilhamento de apoio ao sofrimento recíproco.
Para alguns, será a hora de projetar responsabilidades, verificar erros e até irritar-se, direcionar a raiva, a algo ou alguém, mesmo que esse responsável seja apenas algo simbólico, desde que suficiente a aplacar a angústia interior. Trata-se de uma fase do luto, quando a frustração pela perda emerge em forma de agressão verbal ou até física.
Profissionais da saúde, em perdas coletivas, vivem o dilema entre a própria dor e o vazio sentido, com a necessidade de atuar em prol do atendimento das necessidades da população. Será a hora de evitar os excessos, na tentativa de aplacar o próprio sofrimento. Luto tem que ser vivido, não pode ser controlado, nem medicado, pois deve ser sentido e elaborado, até que a perda encontre seu lugar psíquico dentro daquela sociedade e para cada indivíduo.
Tristeza não deve ser encarada como um sintoma negativo neste momento, ela é uma fase do luto. Se houve uma perda coletiva, será necessário que ela seja vivida por um tempo necessário à elaboração. Aos poucos, a reorganização da vida coletiva começa novamente a ganhar ritmo.
Não que uma perda coletiva possa ser esquecida. Ela nunca será. Mas seu lugar na psiquê deixa de ser o da dor da perda sofrida e passa a ser o da aceitação da inevitabilidade do ocorrido. Esta é a última fase do luto. Quando se mantém e aceita-se o sentimento sem sofrimento, a memória sem lamento e se recupera a possibilidade de seguir em frente.
*Em homenagem a todos os amigos de Chapecó.
*Em homenagem a todos os amigos de Chapecó.
